Descarto a pessoa amada em um clique

Descarto a pessoa amada em um clique

Comecei a ler Amor Líquido do Bauman esses dias e coincidentemente vivenciei uma história que tem semelhança com livro.

Estou no comecinho do livro e me veio à tona essa lembrança. Como já disse, sou puro amor, pode vir uma avalanche de decepção, mas depois de uma boa noite de sono, acordo acreditando que virando uma esquina a pessoa certa vai aparecer.

Primeiro vou falar do livro (quem já leu: desculpa e quem não: recomendo).

Logo na introdução, em uma entrevista com universitários, está escrito que as relações virtuais são fáceis de usar e compreender e o parágrafo é fechado assim: “sempre se pode apertar a tecla de deletar”.

Isso pra mim foi um tapa na cara, me lembrei de alguns matchs de tinder que conversava sempre: bom dia, boa noite e quando me dava preguiça: block.

Eis que o negócio aconteceu comigo, mas minha história é um pouco mais embaixo. Eu e o crush estávamos saindo há uns 2 ou 3 meses, dorme na casa de um de outro, troca mensagem no meio do dia, brinde antes de beber, bairro liberdade aos domingos, essas coisas…

Confesso que foi uma relação nada saudável, mas quando a gente tava junto sempre compensava. Quando quero fugir do mundo, fujo das redes sociais, durante uma crise existencial, desativei instagram e facebook. E o rapaz achou que tinha sido bloqueado, o mal-entendido foi armado e quem dançou fui eu, tomei um belo block no whats. Simples assim, 3 meses se acabaram em um clique. O pior que 3 dias antes tinha dito que amava o cara.

Essa foi a segunda vez que me senti usada e descartada, a primeiro era mais no tetê-a-tetê e ele fugia de mim e não atendia as ligações. Mas dessa vez, depois que tudo rolou me peguei falando em voz alta: “- Mariana, bem-vinda ao século 21”. Onde as pessoas têm zero empatia e consideração, tudo gira em torno do próprio umbigo e ninguém liga para o sentimento do outro.

Eu realmente não sei se antes do século 21 as coisas eram diferentes, mas pelo que ouço eram sim. Esses dias mesmo eu gostei de uma pessoa, adicionei no facebook, demorou pra aceitar, cancelei o pedido. Mais tarde, segui no instagram e mandei mensagem, não respondeu e cancelei tudo de novo – Agora trás isso pra vida real, eu nunca falaria com ele, um dia cruzei ele no corredor e mal tive coragem de olhar.

Voltando ao livro, segue um trecho resumido: “Numa cultura capitalista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea… A promessa de aprender a arte de amar é a oferta… prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforços”.

PARÁGRAFO SEGUINTE: “Sem humildade e coragem não há amor” – Já dizia a música dos Los Hermanos: “Ter fé e ver coragem no amor”.

Parece que ninguém tá nem aí pra ninguém, não quer tentar e saber o que houve. É tão simples chutar balde, bloquear, parar de falar, largar casa montada, desistir de sonhos e planos e por aí vai.

Pra mim terminar meu relacionamento mais longo, tentei muito dar certo, quando vi que não dava mais terminei, mas eu acreditei nesse amor. Não sei se ele podia renascer, pois não existia mais sentimento, mas já vi amores que estavam adormecidos e voltaram a florescer.

Não sei se é nossa geração, as fragilidades emocionais que todos vivemos, a superficialidade em que tudo gira. Não sei se posso culpar o tinder ou o século, mas sim, tudo está descartável. E isso é muito triste!

O gostar como disse ali em cima é ser humildade e ter coragem, me fala alguém que tá disposto a isso? Conheço gente com 50 anos de idade que não está. A questão é que se não existe consideração e empatia, se você não se coloca no lugar do outro, o amor realmente não irá existir. Olha eu, falei te amo e fui deletada.

O único sentimento que existe quando você dá as costas é o (ego)ísmo. Eu sou nova, mas tenho uma bagagem considerável quando o assunto é relação amorosa. Já curti umas boas fossas, adoro pensar na vida à dois, amo sentir frio na barriga e a cada novo match acho que encontrei o pai dos meus filhos.

Quando levei esse block, pensei o quanto as pessoas fazem malabarismo com sentimentos. Imagina 3 bolinhas: o meu, o seu e o nosso sentimento, tudo pairando no ar. O pior é colocar o meu sentimento dentro dessa confusão. Faça malabares, mas não me inclua nisso.

Eu não estou falando pra ninguém desacreditar no amor, jamais. Só acho que quando for pra ser não vai ter malabares, block e nem liquidez. O negócio vai fluir e a consideração e empatia também.

Sempre dizem que o que vem rápido, vai rápido também. Pode ser isso (se for, tô correndo de tinder). E quem gosta de profundidade como eu, senta que lá vem história. Pois ser rasa, eu não faço ideia como é e nem quero saber.

***Imagem: Piero Fornasetti



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