A insegurança é bem-vinda

A insegurança é bem-vinda

Eu tenho vários fantasmas que me assombram e acredito que as sombras são essenciais para existir a luz, então tá tudo bem. É difícil, mas de pouco em pouco a gente consegue conviver com os nossos monstros – por mais dolorido que isso seja.

A insegurança me rodeia por todo canto, já me senti incapaz de muita coisa, me menosprezei e tenho o dom de me colocar pra baixo em um passe de mágica.

Ontem precisei contar resumidamente minha vida, falei bastante como sempre e várias lembranças vieram acompanhadas de nó na garganta enquanto eu contava. Depois que falei, falei, falei sem parar, me fizeram a seguinte pergunta: “Se você ouvisse tudo isso que acabou de me contar de alguém que não conhece e essa fosse a história de vida dela, você ia achar fácil ou difícil?” – Pensei um pouco e já ia disparar um não, mas aí veio outras lembranças da minha vida que não tinha falado, além daquelas. Fiz um breve filme da minha vida e respondi: “Difícil”.

Lógico que existem histórias beeem punks em relação a minha, mas quem vê minha vida hoje, não faz ideia do que já passei. Eu não dava valor ao que vivi, e daí depois uma sessão de terapia (obrigada, senhor) me dei conta que sim, sou foda.

Faço ballet há um ano, durante esse período acho que fiquei uns 7 meses sempre fazendo as posições na barra do fundo, porque dali podia copiar os movimentos da professora e minha colega. E toda santa aula era a mesma ladainha: “Sou ruim. Sou péssima. Não tenho coordenação. Não nasci pro ballet. Quero desistir.” Aliás, pensei MUITAS vezes em desistir e cheguei a chorar pra professora falando que não era capaz de ser bailarina.

Até que um dia, depois de quase 7 ou 8 meses fazendo ballet, resolvi mudar de posição com minha colega, trocamos o lado da barra, e aí, ia ser impossível colar dela. Conclusão: minha melhora foi de uns 80%. Eu simplesmente parei de errar os passos, minha postura ficou melhor e minhas posições estavam ótimas. A partir desse dia, eu fiquei no outro lado da barra, sem copiar de ninguém e dançando decentemente.

Aonde eu quero chegar com tudo isso é simples, mas vou reafirmar em outras palavras: eu precisava confiar em mim, confiar no meu taco, sem colar de ninguém. Todo aprendizado estava comigo, mas eu tinha medo de errar e por isso imitava os outros. Quando parei de copiar, meu desempenho melhorou muito, sem precisar olhar pra alguém e sem ter medo de errar. Simples, né? Mas foram meses errando, apanhando pra aprender e querendo desistir.

Hoje de manhã estava saindo com carro e vi que o protetor de cárter esta solto. E mais uma vez veio um filminho na minha cabeça. Quando comprei meu primeiro carro, com meu dinheiro suado de trabalho, era dependente da minha mãe, ex-namorado e ex-sogro, qualquer pepino corria pra eles, e todo mundo me ajudava sem eu precisar fazer muito esforço. Tanto que quando me separei, deu vontade de ligar pro ex-sogro pra pedir o telefone do mecânico que ele levava (mas não fiz isso, calma gente).

 

Quando me separei milhões de coisas aconteceram ao mesmo tempo, tive que encaixotar um sobrado inteiro, correr atrás da imobiliária, procurar uma casa nova, fechar o contrato, pagar mil contas da casa nova e da casa velha, conclusão, me endividei. Aí tive a brilhante ideia de vender meu carro pra pagar as dividas, então além de tudo da mudança, festa de fim de ano da firma, crush novo, natal e ano novo, tive que arrumar meu carro pra poder vender.

Passei a morar em loja de auto-peças, já até conhecia os funcionários, troquei pneu em borracharia, achei um mecânico de confiança novo e coloquei anuncio na OLX.

Vendi meu carro, mudei de casa, perdi meu cachorro, fui proibida de ver o outro, levei pé na bunda do crush, fiz mudança, fechei contrato do apartamento e tirei férias na casa da minha mãe.

Cada pequena conquista que fazia, lembro que ficava sorrindo a toa e pensando: “Eu não preciso de ninguém pra resolver meus pepinos. Dou conta sozinha”. Foi pauleira, mas eu dei conta mesmo.

Detalhe tudo isso após uma separação de 5 anos de namoro e uma depressão. Mas tava lá radiante fazendo tudo isso.

Aí beleza, comprei outro carro, foi o mesmo caos – banco, financiamento, mecânico, vistoria, despachante e etc. Mas o bonito, resolveu arriar a bateria um dia desses, fiquei uns 10 minutos pensando o que fazer. E foi tranquilo, fui trabalhar de carona, já que tava saindo de casa, voltei a noite pedi o carro de um amigo, fizemos a chupeta e pronto. Tudo lindo e o carro pegando novamente!

Enquanto a gente fazia a chupeta no carro, uma vizinha estava chegando e deu boa noite. E de manhã nos encontramos de novo, e ela perguntou se tinha dado certo, tal e disse: “Nessas horas é ruim ser mulher, né”.

Dei um sorrisinho amarelo e fiquei de novo na frente do volante pensando… Pensei, pensei e pensei mais um pouco feminista que sou. E cara, na boa. Não, não é ruim ser mulher nessas horas. Lógico, que existe um puta preconceito nesses ambientes considerados masculinos e alguns tentam te passar a perna, assim como cara da vistoria me cobrou a mais e alguns mecânicos agem de má fé. Mas tirando essa gente escrota, nós mulheres fazemos tudo e mais um pouco.

Posso ficar falando disso aqui por vidas, mas não é a ideia. Eu só quero dizer que a gente é capaz de tudo que se propõe, mas temos mania de nos colocar pra baixo. Minha mãe é a mulher mais foda dessa face da terra e ela nem percebe isso, por exemplo.

Então, a insegurança é um monstro bem-vindo, que ajuda a te mostrar o quanto você é capaz.

Ilustrações da Kathrin Honesta.



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