A maior mentira dos contos de fadas: a vida adulta

A maior mentira dos contos de fadas: a vida adulta

Hoje depois de resolver tretas da vida, peguei um transito paulista de mais de uma hora pra chegar em casa. Minha regra dentro do carro pra não me estressar nesse caso é ouvir música bem alta e logico que, consequentemente, canto e danço loucamente.

A trilha de hoje tinha Spice Girls e aí comecei a pensar no texto que precisava escrever, e pensei em homenagear minha amiga mais antiga da vida. Cheguei em casa e continuei matutando sobre o que escrever e lembrei que uma vez pensei em escrever sobre a “vida adulta”.

Minha vida adulta está completamente ligada a essa amiga: Brunna. Somos uma dupla desde a primeira série, devia ter uns seis anos quando nos conhecemos, portanto fazem uns 20 anos de amizade.

Eu e a Brunna já passamos muitas coisas juntas e separadas, nossa infância e transição pra vida adulta foi juntas, adolescência estávamos longe uma da outra.

A gente resolveu juntar as escovas de dentes com nossos respectivos na mesma época, o meu casamento graças a deus não deu certo e o da Brunna graças a deus deu certo. Antes desse episodio marcante em nossas vidas, moramos um ano juntas – plano que fazíamos quando éramos crianças.

Lembro da gente sentada no pé de goiaba no quintal da casa dela falando sobre como seria nossa vida adulta, enquanto brincávamos de barbie imaginávamos como estaríamos depois de 15 anos. Tudo era muito lindo, nossas fantasias da vida adulta, a vida das nossas barbies, nossas tardes após a escola confabulando e principalmente, o bendito filme: de repetente 30.

Esse filme, esse filme. Gente, por que? Alguém me explica? Da última vez que eu e a Brunna nos vimos pessoalmente falamos sobre esse filme. Hoje eu moro em São Paulo e ela na França, as duas foram embora de Peruíbe, onde crescemos. E nesse nosso reencontro a gente conversou de como fomos iludidas na nossa infância pela história do filme, no de repente 30 a vida adulta é coisa mais maravilhosa do mundo – por isso, acho que a maior mentira dos contos de fadas é ser adulto.

Ser adulto em filmes, novelas e livros é romantizado, MUITO romantizado. Por uns bons anos da minha vida repetia de boca cheia que não queria crescer, com muuuuuitas sessões de terapia superei essa fase, mas foi beeem difícil, por muitos traumas que não vem ao caso falar.

Eu acredito que por influência de de repente 30, diário de bridget jones, legalmente loira e outros filmes queria ser uma mulher independente, sem marido e filhos e suuuuper reconhecida profissionalmente. Hoje to com 26, já descasei, uso tinder, não tenho filho e trabalho mais que 8 horas por dia pra pagar mil boletos e meu aluguel. E não faço ideia de como vou estar daqui 4 anos, com meus 30.

Esses dias li uma frase que dizia algo do tipo que na verdade ninguém se torna adulto. Eu não me considero uma, de jeito nenhum, danço sozinha na sala de casa, irrito minha gata constantemente, assisto desenho sábado a noite, faço 1 careta a cada 30 palavras e queria o colo da minha mãe agora. Mas em contrapartida, tenho empresa aberta, um emprego fixo e freela, carro financiado em mil vidas, meu nome no contrato de aluguel, uma gata que depende única e exclusivamente de mim e vinte muitos anos – na minha idade meus pais já tinha minha irmã e eu. Eu deixo quase todas minhas plantas morrerem.

Deveria me considerar adulta? Deveria. Mas não quero e não sou. Agora com essas responsas de gente grande consigo enxergar meus pais e os outros adultos como gente, tipo gente como a gente. Meu pai e minha mãe tem perrengues igual a mim, tenho amigos que tem 10 anos a mais que eu 2 filhos e zero maturidade no dia a dia.

Por isso, não me faço essa pressão. E não caio nessa de vida adulta incrível e dos sonhos. Eu tava nesse caminho, morava num bairro legal, com cara ok, cachorro incrível, carro na garagem, bons empregos e uma infelicidade do cão. Então o que é uma vida adulta, eu não sei, dos sonhos então, piorou.

Eu vejo o quanto essa cobrança faz mal, tem dias que meu coração da uma travadinha quando entro no escritório e não tem luz do dia, fico puta quando meu salario acaba em menos de 15 dias pra pagar todas as contas e quando não posso falar tudo que vem na minha cabeça.

Desde pequena falo tudo na lata, já levei tanta bronca por isso, hoje em dia tento me controlar, mas a maioria das vezes sai – e não é mais sinceridade bonitinha de criança, agora são sincericídios de mariana.

Se for pra achar um filme da minha vida atual será o diário da bridget Jones, solteirona, jornalista e um pouco frustrada com a  vida. Mas essa mania de comparar sempre com externo que faz a vida adulta ser um saco. Porque assim entramos naquele ciclo de querer sempre ser melhor que o outro, ter a vida fodona no instagram e ficar mal porque o outro sempre ta melhor que você.

Conto de fadas não existe, desde a parte do príncipe encantado, bruxa má e muito menos vida adulta perfeita. O era uma vez só se encaixa se for pro salario. A competição pra mim é sinônimo de ser adulto, uma competição em vários aspetos, pode ser profissional, fisicamente, material, enfim, tudo se torna competir. E por isso, o saco de ser adulto é quando a gente faz mais pelo outro do que pra gente. Quando somos crianças, foda-se o outro, a única coisa que importa é a nossa felicidade. E acho que esse é o grande lance da vida, sendo gente grande ou não.

**Ilustrações da Sveta Dorosheva



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