Mas eu sou feia…

Mas eu sou feia…

Mas, eu sou muito feia. Perdi as contas de quantas vezes já disse isso. Aí, penso mais um pouco e fico puta da vida comigo. Logo eu, logo você Mariana, que cresceu sem assistir rede globo, não sabe nenhuma música da xuxa e foi criada para combater e odiar o capitalismo. Pois é, logo eu… Logo eu, fico mal com aparência, não gosto do meu corpo, rosto e não consigo ficar mais de dez segundos me olhando no espelho.

Não me sentia confiante para escrever sobre autoestima ou baixa autoestima, como preferir. Achava que pra falar desse assunto tinha que ler algumas estudiosas sobre o tema, consultar sobre o Self de Jung e entender sobre filosofia, estética, cultura da sociedade moderna e um pouco de antropologia. Mas aí fui presenteada pela minha irmã com a indicação desse texto maravilhoso (https://trendr.com.br/sobre-autoestima-e-relacionamentos-f7555b54f7e9).

E me senti preparada para falar sobre. E comecei a pensar e lembrar quantas amigas já ouvi repetir a mesma frase: “Mas eu não sou bonita”.

Algumas pessoas acham que esse tipo de argumento é só um gatilho para receber “confetes”, elogios e alguém te dizer o quanto você é bonita. Mas não, não é. Se fosse simples assim, muitas e muitas mulheres se sentiriam a própria Gisele Bündchen.

Já ouvi tanta amiga gata, digna de cinema, falar que é feia. Aquelas amigas que dão um brilho nos olhos de quem vê, que amo a forma de se vestir, que daria mais de um like na foto se fosse possível, enfim, maravilhosas.

Cheguei a ter uma discussão/disputa com uma amiga sobre quem era mais zuada, eu ou ela. Ficamos empatadas, porque nossos argumentos são diferentes e uma achava a outra linda.

Quando existe a baixa estima, cada uma sabe aquilo que te dói. Cada uma tem sua ferida, cada uma tem seu desgosto.

Minha psicóloga veio me perguntar o que eu gosto em mim, demorei minutos para responder, mas disse meu pé, orelha e nariz. Nas sessões sempre me da um nó na garganta quando caímos no assunto da minha aparência.

Um dia uma amiga que sofre da mesma coisa, me disse: “Eu sei Mari, pode vir o cara mais gato desse bar, o Brad Pitt te falar que você é gata, mas você não vai acreditar, né?!”. É não vou acreditar, mesmo!

Depois de muita terapia consegui postar uma self, e já contei isso chorando uma vez. Pode olhar a linha do tempo do meu instagram, meus selfs são recentes, são tímidos e não consigo olhar pra eles direito, posto e saio correndo. Sofro de crise existencial de fotos de perfil do whats app, nunca tenho nenhuma boa, não gosto de nenhuma, mesmo tacando filtro.

Também já chorei muito descendo a telinha do instagram, chorava todo santo dia, chorava mesmo. Como pode ter tanta mulher linda nesse mundo e eu ser assim? Parei de seguir várias, desinstalei uma época – e fico puta comigo de novo só de lembrar disso – uma pessoa que me relacionei falava: “Nossa, você toda feminista sofrendo por causa de blogueira” (em tom irônico, óbvio).

Além de feminista, sou contra padrões. Padrões é outro assunto que não me sinto preparada para falar, pois envolve taaaanta coisa: mídia, dinheiro, corpos, roupas, no fim, robôs. Essa é minha conclusão sobre padrões, não tem graça tudo ser igual, a mesmíssima coisa, é mega clichê isso, mas vou dizer mesmo assim, parece que todo mundo entra em uma máquina e sai igualzinho.

Eu já tentei me encaixar nos padrões da sociedade, minha época mais baladeira da vida, usava vestidinho, salto, cabelo liso e ia pra balada eletrônica com copo de vodka na mão, mais padrão que isso impossível, só se tiver foguinho saindo do combo de vodka com energético.

Foi a fase da minha vida que me senti mais patinho feio, a noite INTEIRA era essa a frase que martelava na minha cabeça: você é o patinho feio desse lugar. Uma amiga gatíssima sempre pegava os boys mais gatos (porém, boys padrões – que pra mim são mais zuados do que gatos) e até hoje quando to do lado dela me sinto muito feia.

Um tempo atrás tava ficando com um menino, conversa vai conversa vem, ele contou que um amigo dele não entendia porque ele ficava comigo, já que eu usava roupa estranha e tinha o cabelo doido (sim, essa sou eu). Sou completamente fora do padrão e agora quando frequento lugares que tem mais a minha cara, com música brasileira moderninha, gente dançando, tomando cerveja e cachaça e com cara de cult de pinheiros, continuo me sentindo super patinho feio.

O padrão foi só uma desculpa que arrumei para classificar momentaneamente minha péssima autoestima.

Nem preciso dizer quando levo pé na bunda, crush some, ex-namorado joga tudo na cara, pra onde minha estima vai… bem abaixo de zero.

Só que ai tem duas questões que norteiam tudo isso, e fazem um looping infinito (fui redundante de propósito) elas são: amor-próprio e (in)segurança.

Se a Mariana aqui tivesse amor próprio, seria segura de si, logo teria a estima alta. Ou, se a Mariana fosse segura e mandasse os macho, padrões e a porra toda pra casa do caralho, ela teria amor-próprio (se ainda não leu o texto lá de cima, leia) e logo a autoestima seria acima de mil.

Mas nada disso acontece, nada disso acontece mesmo eu sendo feminista e filha de comunista. Eu ainda me acho feia, ainda acho mesmo encontrando um corte de cabelo que combinou comigo, mesmo tendo um guarda-roupa todo preto como amo, ainda me acho feia quando abro a caralha do instagram, quando vou pra balada e quando crush desaparece.

Assim como o padrão tudo isso influencia e muito, mas isso não é a chave do problema, sou eu que preciso me reconhecer e me empoderar (essa palavra tá muito na moda, que bom, mas não queria usar, but só veio ela na cabeça e se encaixa perfeitamente).

Dizem que para fechar um texto precisa de uma conclusão, conselho ou uma moral da história. Eu não tenho o que dizer, eu nem consigo me olhar direito. E entro na paranoia que beleza é fútil, mas quão fútil realmente é? Já que ela mexe com nosso eu, machuca, alegra, enaltece e por aí vai – ela norteia muitos sentimentos, mesmo que confusos.

Eu só quero conseguir me olhar mais de 30 segundo no espelho, achar mais quatro membros do meu corpo para gostar, conseguir achar uma foto pro meu whats app, ter fotos para colocar no tinder (já fui barrada em um app por não ter fotos boas), postar uma self no facebook e deixar comentários abertos. Só quero aceitar quem sou, ver uma foto no insta sem resmungar que preciso de uma plástica na cara toda. Ter uma nova única certeza na vida, que não seja que sou zuada, e ir pra balada sem ficar me diminuído e não aproveitar.

Não faço questão de usar o vestido colado que uma amiga diz que tenho que usar, porque eu realmente não fico a vontade, e tá tudo bem. Mas se um dia der na telha, vou usar sim, mas esse agora não é meu objetivo.

Meu objetivo agora é simplesmente me dar amor, me nutrir e fazer as pazes comigo, na verdade não briguei comigo, já que nunca gostei da minha lata, então quero ter essa paz e fazer amizade com meu eu externo e interno, já que seremos obrigadas a conviver juntas até o fim da vida.

E beleza é tão relativo, que ninguém precisa ir muito longe pra discutir isso. Eu casaria com Julian Casablanca e muita gente acha ele feio, viveria em uma casa bem linda com James Franco, teria um affer com o Johnny Massaro, entraria de véu e grinalda na igreja com João Vicente, queria muito o Charlie Heaton de belisco e ter um filho do Mark Ruffalo, por ai vai minha lista exótica (galãs feios mandou lembranças <3).

Por isso, é foda. Bem foda mesmo, jorrei milhares de palavras no word, vou levantar e em algum momento que me deparar com o espelho, vou pensar: mano, porque você é tão feia? Podia falar que tá tudo bem, mas não tá tudo bem. Já acolhi esse sentimento por 26 anos da minha vida e ele só fez mal pra uma única pessoa, euzinha aqui.


Posso continuar buscando explicações em livros ou culpar o marketing, mas não vai mudar nada. Quem precisar mudar sou eu, sei que já disse isso, mas precisa virar um mantra. Eu sei outra frase que precisa ser mantra: eu me amo. Eu amo tanto os outros, eu sou puro amor (exagerei, só pra dar impacto), mas não consigo me amar. Mas como dizem nada é impossível para o amor, quem dirá pro amor-próprio, então!

Só mais uma coisa: se você não se ama AINDA, elogiei as mulheres que admira. Elogios de mulher para mulher são sinceros, diferente do que falam por aí. Vamos praticar isso, e empoderar as manas e depois a gente, caso seja mais fácil.

As ilustrações incríveis são daqui dailydoodlegram.



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