Quando achei que me encontrei, só queria me desencontrar.

Quando achei que me encontrei, só queria me desencontrar.

Eu juro. Juro mesmo que não queria escrever sobre isso. Eu juro que não queria falar de amor. Eu juro que não queria amar.

Mas o amor não sai da minha cabeça. Eu sentei pra escrever e começou a tocar Temos nosso próprio tempo. Eu abri o computador e a primeira tela que apareceu foi o que você deixou nele. Eu juro que não queria que fosse assim. Juro!

A frase que você me falou não sai da minha cabeça, ela fica martelando, tento encaixar em outras ocasiões da minha vida, eu consegui, mas acabo caindo naquele dia.

Eu parei e pensei, pensei muito. Escutei música deprê, mudei a playlist pra rock, até tentei me concentrar na minha série preferida. Mas aí, a série acabou e quando ligo o som do carro, vem de novo música deprê.

Queria não ser assim, intensa. Queria me disfarçar do que já fui, automática e ignorar os sentimentos, mas isso só acontece porque sou uma pessoa que jorro sentimentos. Os sentimentos explodem dentro de mim, aliás se explodissem só pra mim estava ótimo, mas não, explode tanto que respinga, respinga por onde passo e pra onde olho.

Você me disse que a vida era feita de encontros e desencontros, sei que roubou essa frase do Vinicius de Moraes e eu nem ligo.

Já me desencontrei tanto, tanto e tanto nessa vida. E cheguei a pensar que todos os caminhos que tracei até agora foram só de desencontros. Mas consegui enxergar que não, precisamos só do desencontro pra nos encontrar, e quando digo em terceira pessoa, quero falar em primeira.

Me desencontrei tanto que cheguei onde estou, me encontrando. Se encontrar tem sido meu maior desafio há 26 fucking anos. Já me perdi tanto, me perdi tanto dentro de mim mesma, que parece um vício, sempre quando paro para me olhar estou me desencontrando, mas me enganei quando achei que isso era ruim, não tem nada de ruim em se desencontrar, isso só existe para acontecer o encontro.

E olhei de novo pra mim, tenho me encontrado tanto… Tenho me encontrado em coisas tão pequenas, mas pelo menos tenho me encontrado.

Me encontrei quando tinha me desencontrado completamente de mim mesma, não senti nada, nada e nem ninguém fazia sentido. E aí, foi preciso repensar me tudo e fui obrigada a olhar para meu eu, e comecei aos poucos me encontrar, de pouquinho em pouquinho fui me achando. Sim, é busca incansável – é um eterno encontrar.

Eu deveria fugir dos desencontros, mas fujo dos encontros. Fujo dos encontros porque ali que moram os sentimentos, não quero olhar pra sentimento, não quero olhar pra mim.

Fujo tanto de mim, a gente foge tanto um do outro. Fugimos do que sentimos. Eu não sou pragmática quando quero definir sentimento. Mas pra mim o sentimento é um estado do ser, minha intenção não é colocar isso em uma caixinha, como pode parecer.

Mas essa caixa é tão profunda, se fosse rasa talvez fosse mais fácil falar dela. Ela mora onde a gente não consegue olhar, ela mora onde a gente só sente.

Queria mascarar, esconder e ser um ser-concreto. Mas meu sentir não me permite, ele grita alto. E ele faz eu me encontrar, busquei tanto isso e agora que achei o caminho quero me desencontrar, fugir…

Quando sentei pra escrever esse texto, depois de tomar fôlego e coragem, achei que ia ser uma declaração de amor. E na verdade é, é uma declaração de amor, uma declaração de amor próprio, baseada em encontros e desencontros do ser e não da vida.

Como quem me inspirou a escrever foi você, termino esse texto com a sua inspiração: ”A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

E te agradeço por esse nosso (des)encontro.

Todas ilustrações são de Mi-Kyung Choi.



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