Ode à depressão

Ode à depressão

A proposta do meu blog é publicar uma vez por semana e espero do fundo do meu coração conseguir isso. Com meu primeiro texto, tive um retorno muito especial. E minha proposta aqui é falar sobre muitos assuntos, mas não adianta fugir, não adianta eu fugir, precisamos/ preciso falar sobre a depressão. Essa carta abaixo eu fiz por volta de setembro de 2016, não imaginava compartilhá-la, mas abro meu todo meu coração e falo o quanto precisar sobre o assunto. Vem cá, vamos conversar sobre depressão e tá tudo bem.

***

Querida depressão,

by Amélie Fontaine

Não sei realmente há quanto tempo convivemos juntas, sei que você estava comigo em muitos momentos, no chão gelado do banheiro acompanhado de choro, no sofá todas as noites e os todos dias da semana, encarando o computador para começar a trabalhar, na fome que foi embora, nas insônias, em plenas férias no nordeste, no show da minha banda preferida… Já deu pra perceber que nos tornamos inseparáveis, né?!

Confesso que no começo fiquei bem assustada quando soube que você estava latente dentro de mim, como um tiro à queima roupa, um grito alto, forte e dolorido. Te domar não nem um pouco simples, tive que escutar incontáveis vezes: “Essa menina é muito preguiçosa, só vive com sono”. Também muitas e muitas vezes diziam que eu era dramática, me fazia de vítima e que o chorava sem motivo quase sempre, pois tenho uma vida perfeita. E o clássico isso é frescura ou pensa positivo, que logo passa.

Eu me sentia mal, muito mal, porque não sabia de onde vinha tanta triste e angústia. Chorar e ficar em posição fetal na cama era só o que queria. Quantas vezes no trânsito eu travei sem saber o que fazer… Mas isso era coisa de gente doida, falando em gente doida, você me fez buscar a análise, e obrigada pela dica, se é lá que gente doida vai, sou doida mesmo.

Chorei, dei gargalhadas, achei que o dinheiro não ia dar pra pagar, pensei em desistir da psicóloga, mandei mensagem pra ela nas férias, pedi conselhos que ela nunca me deu e tive que descobri a resposta sozinha, quis me dar alta e achei que nunca ia ter alta (ainda acho). Mas foi lá, lá na terapia que você e todo turbilhão que me traz junto passou a ter nome: Depressão. Esse é seu nome, minha querida amiga.

Como assim, to com depressão? Eu não tenho isso, não! Eu estou Ó-T-I-M-A. Só choro muito por causa da TPM e durmo demais, porque a vida em São Paulo é punk. Só isso”. “Não, você está com depressão, ok!

E ai vem àquelas perguntas de novo (haja saco pra taaaaaanta pergunta), “Porque você ficou assim?”, “Já descobriu o motivo que te fez ficar assim?” e por aí vai….

Ai amiga, não foi e nem continua sendo fácil explicar. Só eu e você sabemos, que na verdade não sabemos. Sabe-se lá
quando nossa amizade começou. Não fazemos ideia. Aconteceu, aliás, acontece como quebrar um braço, ter uma miopia ou diabetes. As pessoas não entendem você é uma doença, pra que tanto rebuliço a toa? Você é uma doença como essas que acabei de falar e outras milhões que existem por aí.

Eu aprendi um pouco com a nossa convivência. E você, Depressão, é muito mais complexa que eu, que sou de gêmeos, lua escorpião e vênus em câncer – cara, isso é a treva, mas você consegue se superar.

Olha, e vou te falar que você dói, dói muito. É tipo um buraco fundo e preto no peito que faz eco de tão vazio e oco. O ar que entra, não sai mais, só se transforma em muitos nós dentro do peito.

“A ferida é o local onde a luz entra em você” – Se você permitir. (Frase do filme Margarita com canudinho)

Já tive relacionamentos conturbados, mas o nosso, vou te falar, foi conturbado em níveis astrais. Aconteceu de tudo, teve gente que sumiu da minha vida, outras me deram colo, algumas se aproximaram e eu, fiz zilhões de coisas que nunca imaginei, tudo por você – tive medo, perdi medos, tomei coragem e etc.

Quis morrer, quis muito, muito, muuuito mesmo morrer. Só queria sumir daqui. Queria estar no buraco fundo e preto que você me apresentou. Eu me cortei, quando eu imaginei na minha vida que fosse me cortar? Nunca. Mas aconteceu, e posso te falar, você é uma das amizades mais incríveis que tenho.

Mas, pra gente se tornar melhores amigas, eu tive que achar seu calmante. Só assim, conseguimos ter uma relação saudável, literalmente. A famosa tarja preta. COMO ASSIM??? VOCÊ TOMA ANTIDEPRESSIVO?

Tomo, e posso te falar? Foi a melhor coisa que aconteceu, afinal de contas, eu to aqui. Simples assim. Eu, como muitas pessoas que conheço, achava a maior furada. “É coisa de louco, não vai funcionar, você nunca mais parar, vai virar dependente e blábláblá”. Ouço até hoje, até da minha família, que acompanhou nossa amizade de camarote.

E eu falo toda feliz e de boca cheia: SIM, eu tomo e foi o que me curou! E muito mais que isso, foi o fortaleceu nossa amizade. O relacionamento mais doloroso que tive e no final das contas, sei que foi apenas comigo mesma. Mas prefiro dar os créditos à você e te nomear como uma das melhores coisas que me aconteceu. Obrigada minha querida, pequena, gigante, dolorosa e companheira amiga. Espero ansiosamente por sua partida, nossa despedida não será nada dolorosa e sei que será em breve. Mas vou levar sempre comigo todo esse aprendizado, você faz parte de mim e graças a você estou descobrindo quem sou. Gratidão!

***

Para você que está lendo sobre eu e minha amiga, peço licença pra dar um conselho, depressão existe, tá ai, por todo canto, por todo lado, na família, no trabalho, na faculdade e até no churrasco dos amigos. E ela é um tabu, um ridículo de um tabu. Só quem sente, sabe a dor que é. É uma doença, não passa de uma doença, tem cura, tem remédio, tem médicos, tem tanta coisa linda que ajuda a essa amizade ficar verdadeira e saudável, pode ter certeza. Confia em mim, eu sei do que estou falando. É sério.

Foto de capa: Kathrinhonestaa 



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